Translate this blog here for your language.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A Noite do Boneco Vivo II - capítulo 1

Capítulo 1 - tradução: Kalel Pessanha


Meu nome é Amy Kramer, e toda quinta-feira eu me sinto um pouco idiota. Isso porque quinta-feira é a "Noite da Família" na minha casa.
Sara e Jad acham idiota também. Mas o papai e a mamãe não ouvem nossas queixas.
- É a noite mais importante da semana - diz o papai.
- É uma tradição da família - mamãe acrescenta. - É algo que as crianças sempre vão se lembrar.
Mamãe tem razão. É algo que sempre vou me lembrar, como muito chato e embaraçoso.
Você provavelmente já adivinhou o que fazemos na "Noite da Família", cada membro da família Kramer, exceto Jorge (nosso gato), tem que compartilhar algo com o resto da família.
Não é tão ruim para a minha irmã, Sara. Sara tem quatorze anos, dois anos mais velha que eu, e é uma pintora genial. De verdade. Uma de suas pinturas foi escolhida para uma exposição no museu de arte do centro.
Então Sara sempre compartilha alguns esboços do que ela está trabalhando. Ou uma nova pintura.
E a Noite da Família também não é tão ruim para o Jed. Meu irmão de dez anos, brinca o tempo todo. Ele não se importa com o que compartilhar. Numa quinta feira à noite ele arrotou bem alto e explicou que estava compartilhando o jantar.
Jed riu como um louco.
Mas mamãe e papai não acharam engraçado. Deram um sermão em Jed para levar a Noite da Família mais a sério.
Na Noite da Família seguinte, meu irmão detestável leu um bilhete que David Miller, um garoto da minha escola, tinha escrito para mim. Uma recado muito pessoal! Jed encontrou o bilhete no meu quarto e decidiu compartilhar com todo mundo.
Legal, não?
Queria morrer. Sério mesmo.
Jed se acha bonito e adorável. Ele realmente acha que é muito especial.
Eu acho que é porque ele é o único ruivo na família. Sara e eu temos cabelo liso e preto, olhos verdes, e pele muito bronzeada. Com sua pele pálida, rosto sardento e cabelos ruivos encaracolados, Jed parece de outro família!
E, por vezes, Sara e eu gostaríamos que fosse.
De qualquer forma, eu sou a que mais tenho problemas com a Noite da Família. Porque eu não sou tão talentosa quando Sara. E não sou tão boba como Jed.
Então, eu nunca sei o que compartilhar.
Quero dizer, eu tenho uma coleção de conchas, que eu mantenho em um frasco em cima da minha cômoda. Mas é realmente muito chato compartilhar conchas e falar sobre elas. E nós não vamos ao mar há quase dois anos. Então minhas conchas são meio velhas, e todo mundo já viu.
Eu também tenho uma coleção de CDs. Mas ninguém da minha família gosta de Bob Marley e reggae. Se eu começar a compartilhar essas músicas com eles, todos vão tapar os ouvidos e se queixar até eu tirar.
Então eu costumo contar alguma história... uma história de aventura sobre uma garota que supera desafios atrás de desafios. Ou um conto de fadas selvagem sobre princesas que se transformam em tigres.
Depois da minha última história, meu pai coloca um grande sorriso no rosto.
- Amy vai ser uma escritora famosa. - ele anuncia. - Ele é tão boa em inventar histórias. - papai olha ao redor da sala, ainda sorrindo. -  Nós temos uma família tão talentosa! - ele sempre exclama.
Eu sabia que ele dizia isso apenas para ser bom pai. Para me "incentivar". Sara é a talentosa da família. Todos nós sabemos.
Hoje à noite, Jed vai ser o primeiro a compartilhar. Mamãe e papai se sentaram no sofá da sala. Papai tinha sujado os óculos e estava vesgo enquanto limpava-os. Papai não pode ver uma poeirinha nos óculos. Ele o limpa cerca de vinte vezes por dia.
Eu me sentei na grande poltrona marrom encostada na parede. Sara sentou de pernas cruzadas no tapete do lado da minha cadeira.
- O que você vai nos mostrar hoje à noite? - mamãe perguntou à Jed. - Espero que não seja mais um arroto horrível.
- Isso foi tão nojento! - Sara resmungou.
- Você que é nojenta! - Jed rebateu. Ele mostrou a língua para Sara.
- Jed, por favor... nos dê uma noite tranquila - papai murmurou, deslizando seu óculos no pano e ajeitando-o no nariz. - Fique longe de problemas.
- Foi ela que começou - Jed insistiu, apontando para Sara. - É só compartilhar alguma coisa - ele suspirou.
- Eu vou compartilhar suas sardas - Sara disse a ele. - Vou tirá-las, uma a uma, e dará-la-eis para Jorge.
Sara e eu rimos. Jorge não olhou pra cima. Ele estava enrolado, cochilando no tapete ao lado do sofá.
- Isso não é engraçado, meninas - mamãe interpôs. - Parem de ser más como o seu irmão.
- Essa deveria ser a "noite em família" - papai lamentou. - Por que não podemos ser uma família?
- Mas nós somos! - Jed insistiu.
Papai franziu a testa e balançou a cabeça. Ele parece uma coruja quando faz isso.
- Jed, vai compartilhar alguma coisa? - ele perguntou com a foz fraca.
Jed assentiu.
- Sim.
Ele estava no meio da sala e enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans. Ele sempre calças jeans mais largas, até dez tamanhos maiores. Todos sempre acham que ele vai cair. Jed acha que é legal.
- Eu... ãh... aprendi a assobiar entre os dedos - ele anunciou.
- Uau! - Sara murmurou sarcasticamente.
Jed ignorou. Tirou as mãos dos bolsos. Em seguida, colocou seus dois dedinhos nos lados de sua boca e soltou um assobio longo e estridente.
Ele assobiou por entre os dedos mais duas vezes. Então fez uma acentuada reverência. A família inteira aplaudiu.
Jed, sorrindo, deu outra reverência.
- Essa família é tão talentosa! - papai exclamou. Desta vez, ele disse num tom de brincadeira.
Jed caiu no chão ao lado de Jorge, assustando o pobre gato que acabara de acordar.
- É a próxima, Amy - mamãe disse, virando-se para mim. - Vai nos contar outra história?
- Suas história são muito grandes! - Jed reclamou.
Jorge se levantou com suas patas cambaleantes e se afastou alguns metros de Jed. Bocejando, o gato se deitou ao lado dos pés da mamãe.
- Não vou contar uma história esta noite - eu anunciei. Peguei Dênis atrás da minha poltrona.
Sara e Jed gemeram.
- Ah... dá um tempo! - gritei.
Voltei a me sentar na poltrona, fixando meu ventríloquo no colo.
- Achei que o Dênis não viria essa noite - disseram mamãe e papai.
Eles deram um sorriso amarelo. Não liguei. Eu tinha praticado com o Dênis a semana toda. Queria experimentar meu novo número cômico com ele.
- Amy é uma péssima ventríloqua - Jed se meteu. - Vemos os seus lábios mexendo.
- Calado, Jed. Acho Dênis engraçado - disse Sara. Ela se sentou no sofá para ver melhor.
Equilibrei Dênis no meu joelho esquerdo e passei meus dedos pelas cordas em suas costas para controlar sua boca. Dênis é um boneco de ventríloquo muito antigo. A pintura de seu rosto está desbotada. Um olho é quase todo branco. Seu suéter de gola alta é rasgado e esfarrapado.
Mas me divirto muito com ele. Quando tinha cinco anos, e meus primos vinham me visitar, eu os entretenha com Dênis. Eles gritavam e riam. Achavam que era um motim.
Acho que estou ficando melhor com o Dênis. Apesar das reclamações de Jed.
Respirei fundo, olhei para mamãe e papai, e comecei meu número.
- Como está se sentindo hoje, Dênis? - eu perguntei.
- Não muito bem - fiz a resposta do manequim em voz alta e estridente. A voz de Dênis.
- Sério, Dênis? O que houve?
- Acho que estou com insetos.
- Quer dizer que está resfriado? - perguntei a ele.
- Não. Cupins!
Mamãe e papai riram. Sara sorriu. Jed gemeu alto.
Me concentrei em Dênis.
- Bem, já foi ao médico? - perguntei a ele.
- Não. Fui num carpinteiro!
Mamãe e papai deram um sorriso amarelo. Jed gemeu novamente. Sara colocou o dedo na garganta, fingindo vomitar.
- Ninguém gosta de piadas, Dênis - disse a ele.
- Quem contou uma? - fiz Dênis responder.
- Ele é chato - ouvi Jed murmurar a Sara. Ela assentiu com a cabeça, concordando.
- Vamos mudar de assunto, Dênis - disse, mudando o boneco para o meu outro joelho. - Você tem namorada?
Debrucei Dênis para frente, tentando fazê-lo acenar com a cabeça que sim. Mas sua cabeça rolou para a direita pelos seus ombros.
A cabeça de madeira bateu no chão com um baque e foi para cima de Jorge. O gato pulou e saiu correndo.
Sara e Jed passaram mal de tanto rir, batendo uns nos outros.
Levantei com raiva.
- Papai! - gritei. - Você prometeu que ia comprar um boneco novo!
Jed correu para o tapete e pegou a cabeça de Dênis. Ele puxou a corda, fazendo a boca do manequim se mexer.
- Amy fede! Amy fede! - Jed fez o manequim repetir.
- Me dá isso! - agarrei a cabeça com raiva da mão de Jed.
- Amy fede! Amy fede! - Jed continuou cantando.
- Já basta! - mamãe gritou, levantando-se do sofá.
Jed se recuou para a parede.
- Andei pesquisando um novo manequim pelas lojas. - papai me disse, tirando os óculos novamente e examinando-os de perto. - Mas todos eles são muito caros.
- Bem, e como vou me aperfeiçoar com isso? - eu exigi. - A cabeça de Dênis cai toda vez que o uso!
- Faça o seu melhor - mamãe disse.
O que queria dizer? Eu sempre odiava quando ela dizia isso.
- Em vez de Noite da Família, devíamos chamar de Noite da Porradaria. - Sara declarou.
Jed ergueu os punhos.
- Quer brigar? - perguntou Sara.
- É a sua vez, Sara - mamãe disse, apertando os olhos para Jed. - O que vai compartilhar essa noite?
- Tenho uma nova pintura. - Sara anunciou. - É uma aquerela.
- Do quê? - perguntou papai, colocando os óculos no rosto.
- Se lembra da cabana que íamos em Maine alguns verões atrás? - Sara respondeu, jogando seus cabelos pretos e lisos para trás. - A única com vista para o rochedo? Eu achei uma foto dela, e tentei pintar.
De repente, me senti muito irritada e chateada. Admito. Eu estava com ciúmes de Sara.
Ali estava ela, quase compartilhando outra bela aquarela. E lá estava eu, arrancando a cabeça de um manequim estúpido de madeira sentado no meu colo.
Não era justo!
- Vão ter que ir ao meu quarto para ver - Sara estava dizendo. - Ainda está úmida.
Todos nós nos levantamos e andamos até o quarto de Sara.
Minha família vive numa grande casa de um andar só, no estilo fazenda. Meu quarto e o quarto de Jed ficam no final de um corredor. A sala de estar, a sala de jantar e a cozinha estão no meio. O quarto de Sara e o quarto de meus pais são em outro corredor, na outra extremidade da casa.
Eu liderei o caminho pelo corredor. Atrás de mim, Sara falava dos problemas que ela teve com a pintura e como resolveu todos eles.
- Me lembro da cabine nitidamente - disse o papai.
- Mal posso esperar para ver a pintura - mamãe acrescentou.
Entrei no quarto de Sara e acendi a luz.
Então eu me virei para o cavalete perto da janela onde a pintura foi feita... e soltei um grito de terror.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Os Polos Magnéticos da Terra Podem Inverter em Poucos Anos

Atualmente, um fenômeno desse tipo poderia causar estragos nas redes elétricas e aumentar as taxas de câncer.


Imagine que um dia você acorde e descubra que todas as bússolas apontam para o "Sul" em vez de "Norte". Parece algo impossível, mas não é. O campo magnético da Terra vem virando (embora claro, não aconteça da noite para o dia) muitas vezes na história do planeta. Seu campo magnético bipolar, como o de um imã, mantém aproximadamente a mesma intensidade durante milhões e milhões de anos, mas por razões desconhecidas, de vez em quando se debilita e muda de direção.

Até agora acreditava-se que esse processo levava alguns milhões de anos, mas um novo estudo realizado por uma equipe internacional de cientistas demonstra que a última inversão magnética registrada foi há 786.000 anos atrás, e não demorou muito para acontecer, ocorreu muito rapidamente (em menos de 100 anos, mais ou menos a expectativa de vida humana).

"Foi incrível a rapidez com que houve a inversão", disse Courtney Sprain, pesquisadora da Universidade da Califórnia, co-autora do estudo que será publicado na revista International Journal Geophysical e que pode ser encontrada na internet.

Câncer e redes elétricas

Novas evidências indicam que a intensidade do campo magnético da Terra está diminuindo 10 vezes mais rápido do que o normal, o que leva alguns geofísicos a prever uma mudança dentro de alguns milhares de anos. Apesar de uma inversão magnética ser um importante fenômeno na escala planetária impulsionada pelo núcleo de ferro e níquel da Terra, os cientistas asseguram que não há catástrofes associadas com inversões passadas que tenham "deixado suas marcas" nos registros geológicos e biológicos. Mas o mundo mudou. Hoje, um processo dessa grandeza poderia causar estragos nas nossas redes elétricas, gerando correntes que as destruiriam.

Tendo em mente que o campo magnético terrestre protege a vida das partículas carregadas do Sol e dos raios cósmicos, com quais em contato com a pela poderia causar mutações genéticas, a debilitação temporária ou perda do campo poderia aumentar as taxas de câncer.

Sedimentos Italianos

A nova descoberta é baseada na análise do alinhamento do campo magnético em camadas de sedimentos de lagos antigos, agora expostos na bacia Sulmona, Itália. Como os sedimentos do lago se depositaram em uma velocidade alta e constante durante um período de 10.000 anos, a equipe foi capaz de intercalar a data das depositações das camada que mostra a inversão magnética, a chamada Reversão Brunhes-Matuyama, há aproximadamente 786.000 anos. Essa data é muito mais precisa do que a de estudos anteriores, que colocam a inversão acontecendo entre 770.000 a 795.000 anos atrás.

"O que surpreende é que ele vai de uma polaridade inversa a um campo que é normal, com praticamente nada no meio, o que significa que teve ter acontecido muito rapidamente, provavelmente em menos de 100 anos", diz Paul Renne, professor de Berkeley, "Não sabemos se a próxima inversão será tão rápida quanto a última".

A nova descoberta pode ajudar os investigadores a entender como e por quê o campo magnético inverte de forma periódica.

fonte: uno.com.ar
data: 15/10/2014

terça-feira, 14 de outubro de 2014

OS SEGREDOS DA BÍBLIA - A terra prometida

Aqui está a segunda parte sim do documentário do History: "OS SEGREDOS DA BÍBLIA - A terra prometida":



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Copromancia

Por que Deus, o criador de tudo o que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do Nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda?

Não sei por que comecei a ter esse tipo de preocupação. Não era um homem religioso e sempre considerei Deus um mistério acima dos poderes humanos de compreensão, por isso ele pouco me interessava. O excremento, em geral, sempre me pareceu inútil e repugnante, a não ser, é claro, para os coprófilos e coprófagos, indivíduos raros dotados de extraordinárias anomalias obsessivas. Sim, sei que Freud afirmou que o excrementício está íntima e inseparavelmente ligado ao sexual, a posição da genitália — inter urinas et faeces — é um fator decisivo e imutável. Porém isso também não me interessava.

Mas o certo é que estava pensando em Deus e observando as minhas fezes no vaso sanitário. É engraçado, quando um assunto nos interessa, algo sobre ele a todo instante capta a nossa atenção, como o barulho do vaso sanitário do vizinho, cujo apartamento era contíguo ao meu, ou a notícia que encontrei, num canto de jornal, que normalmente me passaria despercebida, segundo a qual a Sotheby’s de Londres vendera em leilão uma coleção de dez latas com excrementos, obras de arte do artista conceitual italiano Piero Manzoni, morto em 1963. As peças haviam sido adquiridas por um colecionador privado, que dera o lance final de novecentos e quarenta mil dólares.

Não obstante minha reação inicial de repugnância, eu observava minhas fezes diariamente. Notei que o formato, a quantidade, a cor e o odor eram variáveis. Certa noite, tentei lembrar as várias formas que minhas fezes adquiriam depois de expelidas, mas não tive sucesso. Levantei, fui ao escritório, mas não consegui fazer desenhos precisos, a estrutura das fezes costuma ser fragmentária e multifacetada. Adquirem seu aspecto quando, devido a contrações rítmicas involuntárias dos músculos dos intestinos, o bolo alimentar passa do intestino delgado para o intestino grosso. Vários outros fatores também influem, como o tipo de alimento ingerido.

No dia seguinte comprei uma Polaroid. Com ela, fotografei diariamente as minhas fezes, usando um filme colorido. No fim de um mês, possuía um arquivo de sessenta e duas fotos — meus intestinos funcionam no mínimo duas vezes por dia —, que foram colocadas num álbum. Além das fotografias de meus bolos fecais, passei a acrescentar informações sobre coloração. As cores das fotos nunca são precisas. As entradas eram diárias.

Em pouco tempo sabia alguma coisa sobre as formas (repito, nunca eram exatamente as mesmas) que o excreto podia adquirir, mas aquilo não era suficiente para mim. Quis então colocar ao lado de cada porção a descrição do seu odor, que era também variável, mas não consegui. Kant estava certo ao classificar o olfato como um sentido secundário, devido a sua inefabilidade. Escrevi no Álbum, por exemplo, este texto referente ao odor de um bolo fecal espesso, marrom-escuro: odor opaco de verduras podres em geladeira fechada. O que era isso, odor opaco? A espessura do bolo me levara involuntariamente a sinonimizar: espesso- opaco? Que verduras? Brócolis? Eu parecia um enólogo descrevendo a fragrância de um vinho, mas na verdade fazia uma espécie de poesia nas minhas descrições olfativas. Sabemos que o odor das fezes é produzido por um composto orgânico de indol, igualmente encontrado no óleo de jasmim e no almíscar, e de escatol, que associa ainda mais o termo escatologia às fezes e à obscenidade. (Não confundir com outra palavra, homógrafa em nossa língua, mas de diferente etimologia grega, uma skatos, excremento, a outra éschatos, final, esta segunda escatologia possuindo uma acepção teológica que significa juízo final, morte, ressurreição, a doutrina do destino último do ser humano e do mundo.)

Faltava-me obter o peso das fezes e para tanto meus falazes sentidos seriam ainda menos competentes. Comprei uma balança de precisão e, após pesar durante um mês o produto dos dois movimentos diários dos meus intestinos, concluí que eliminava, num período de vinte e quatro horas, entre duzentos e oitenta e trezentos gramas de matéria fecal. Que coisa fantástica é o sistema digestivo, sua anatomia, os processos mecânicos e químicos da digestão, que começam na boca, passam pelo peristaltismo e sofrem os efeitos químicos das reações catalíticas e metabólicas. Todos sabem, mas não custa repetir, que fezes consistem em produtos alimentares não digeridos ou indigeríveis, mucos, celulose, sucos (biliares, pancreáticos e de outras glândulas digestivas), enzimas, leucócitos, células epiteliais, fragmentos celulares das paredes intestinais, sais minerais, água e um número grande de bactérias, além de outras substâncias. A maior presença é de bactérias. Os meus duzentos e oitenta gramas diários de fezes continham, em média, cem bilhões de bactérias de mais de setenta tipos diferentes. Mas o caráter físico e a composição química das fezes são influenciados, ainda que não exclusivamente, pela natureza dos alimentos que ingerimos. Uma dieta rica em celulose produz um excreto volumoso. O exame das fezes é muito importante nos diagnósticos definidores dos estados mórbidos, é um destacado instrumento da semiótica médica. Se somos o que comemos, como disse o filósofo, somos também o que defecamos. Deus fez a merda por alguma razão.


Esqueci-me de dizer que troquei o meu vaso sanitário, cuja bitola afunilada constringia as fezes, por um outro de fabricação estrangeira que teve de ser importado, uma peça com o fundo muito mais largo e mais raso, que não causava nenhuma interferência no formato do bolo fecal quando de sua queda após ser expelido, permitindo uma observação mais correta do seu feitio e disposição naturais. As fotos também eram mais fáceis de realizar e a retirada do bolo para ser pesado — a última etapa do processo — exigia menos trabalho.

Um dia, estava sentado na sala e notei sobre a mesa uma revista antiga, que devia estar num arquivo especial que tenho para as publicações com textos de minha autoria. Eu não me lembrava de tê-la retirado do arquivo, como fora aparecer em cima da mesa? Senti um certo mal-estar ao procurar o meu artigo. Era um ensaio que eu intitulara “Artes adivinhatórias”. Nele eu dizia, em suma, que astrologia, quiromancia & companhia não passavam de fraudes usadas por trapaceiros especializados em burlar a boa-fé de pessoas incautas. Para escrever o artigo, entrevistara vários desses indivíduos que ganhavam a vida prevendo o futuro e muitas vezes o passado das pessoas, através da observação de sinais variados. Além dos astros, havia os que baseavam sua presciência em cartas de baralho, linhas da mão, rugas da testa, cristais, conchas, caligrafia, água, fogo, fumaça, cinzas, vento, folhas de árvores. E cada uma dessas divinações possuía um nome específico, que a caracterizava. O primeiro que entrevistei, que praticava a geloscopia, dizia-se capaz de descobrir o caráter, os pensamentos e o futuro de uma pessoa pela maneira dela gargalhar, e me desafiou a dar uma risada. O último que entrevistei… 

Ah, o último que entrevistei… Morava numa casa na periferia do Rio, uma região pobre da zona rural. O que me levou a enfrentar as dificuldades de encontrá-lo foi o fato de ser ele o único da minha lista que praticava a arte da aruspicação, e eu estava curioso para saber que tipo de embuste era aquele. A casa, de alvenaria, de apenas um piso, ficava no meio de um quintal sombreado de árvores. Entrei por um portão em ruínas e tive que bater várias vezes na porta. Fui recebido por um homem velho, muito magro, de voz grave e triste. A casa era 
pobremente mobiliada, não se via nela um único aparelho eletrodoméstico. As artimanhas desse sujeito, pensei, não o estão ajudando muito. Como se tivesse lido os meus pensamentos ele resmungou, você não quer saber a verdade, sinto a perfídia em seu coração. Vencendo a minha surpresa respondi, só quero saber a verdade, confesso que tenho prevenções, mas procuro ser isento nos meus julgamentos. Ele me pegou pelo braço com sua mão descarnada. Venha, disse.

Fomos para os fundos do quintal. Havia no chão de terra batida alguns cercados, um contendo cabritos, outro aves, creio que patos e galinhas; e mais um, com coelhos. O velho entrou no cercado de cabritos, pegou um dos animais e levou-o para um círculo de cimento num dos cantos do quintal. Anoitecia. O velho acendeu uma lâmpada de querosene. Um enorme facão apareceu em sua mão. Com alguns golpes, não sei de onde tirou a força para fazer aquilo, cortou a cabeça do cabrito. Em seguida — detesto relembrar esses acontecimentos —, usando sua afiada lâmina, abriu uma profunda e larga cavidade no corpo do cabrito, deixando suas entranhas à mostra. Pôs a lâmpada de querosene ao lado, sobre uma poça de sangue, e ficou um longo tempo observando as vísceras do animal. Finalmente, olhou para mim e disse: a verdade é esta, uma pessoa muito próxima a você está prestes a morrer, veja, está tudo escrito aqui. Venci minha repugnância e olhei aquelas entranhas sangrentas. 

- Vejo um número oito.


- É esse o número - disse o velho.

Essa cena eu não incluí no meu artigo. E durante todos esses anos deixei-a esquecida num dos porões da minha mente. Mas hoje, ao ver a revista, rememorei, com a mesma dor que sentira na ocasião, o enterro da minha mãe. Era como se o cabrito estivesse estripado no meio da minha sala e eu contemplasse novamente o número oito nos intestinos do animal sacrificado. Minha mãe era a pessoa mais próxima de mim e morreu inesperadamente, oito dias depois da profecia funesta do velho arúspice.


A partir daquele momento em que desbloqueei da minha mente a lembrança do sinistro vaticínio da morte da minha mãe, comecei a procurar sinais proféticos nos desenhos que observava em minhas fezes. Toda leitura exige um vocabulário e evidentemente uma semiótica, sem isso o intérprete, por mais capaz e motivado que seja, não consegue trabalhar. Talvez o meu Álbum de fezes já fosse uma espécie de léxico, que eu criara inconscientemente para servir de base às interpretações que agora pretendia fazer.

Demorei algum tempo, para ser exato setecentos e cinquenta e cinco dias, mais de dois anos, para poder desenvolver meus poderes espirituais e livrar-me dos condicionamentos que me faziam perceber somente a realidade palpável e afinal interpretar aqueles sinais que as fezes me forneciam. Para lidar com símbolos e metáforas é preciso muita atenção e paciência. As fezes, posso afirmar, são um criptograma, e eu descobrira os seus códigos de decifração. Não vou detalhar aqui os métodos que utilizava, nem os aspectos semânticos e hermenêuticos do processo. Posso apenas dizer que o grau de especificidade da pergunta é fator ponderável. Consigo fazer perguntas prévias, antes de defecar, e interpretar depois os sinais buscando a minha resposta. Por outro lado, interrogações que podem ser elucidadas com uma simples negativa ou afirmativa facilitam o trabalho. Consegui prever, através desse tipo de indagação específica, o sucesso de um dos meus livros e o fracasso de outro. Mas às vezes eu nada indagava, e usava o método incondicional, que consiste em obter respostas sem fazer perguntas. Pude ler, nas minhas fezes, o presságio da morte de um governante; a previsão do desabamento de um prédio de apartamentos com inúmeras vítimas; o augúrio de uma guerra étnica. Mas não comentava o assunto com ninguém, pois certamente diriam que eu era um louco.

* * *

Há pouco mais de seis meses notei que mudara o ritmo das descargas da válvula do vaso sanitário do meu vizinho e logo descobri a razão. O apartamento fora vendido para uma jovem mulher, a quem encontrei, numa tarde ao chegar em casa, desanimada em frente à sua porta. Estava sem as chaves e não podia entrar. Eu me ofereci para entrar pela minha janela no seu apartamento, se a janela dela estivesse aberta, e abrir a porta. Isso exigiu de mim um pouco de contorcionismo, mas não foi difícil.

Ela me convidou para tomar um café. Seu nome era Anita. Passamos a nos visitar, gostávamos um do outro, morávamos sozinhos, nem eu nem ela tínhamos parentes no mundo, nossos interesses eram comuns e parecidas as opiniões que tínhamos sobre livros, filmes, peças de teatro. Ainda que ela fosse uma pessoa mística, jamais lhe falei dos meus poderes divinatórios, pois merda, entre nós, era um assunto tacitamente interdito, ela certamente não me deixaria ver as suas fezes; se um de nós fosse ao banheiro, tomava sempre o cuidado de pulverizar depois o local com um desodorante, colocado estrategicamente ao lado do lavatório.

Durante dez dias, antes de lhe declarar o meu amor, interpretei os sinais e decifrei as respostas que as minhas fezes davam à pergunta que fazia: se aquela seria a mulher da minha vida. A resposta era sempre afirmativa. Fui almoçar num restaurante com Anita. Como de hábito, ela demorou um longo tempo lendo o cardápio. Eu já disse que ela se considerava uma pessoa mística e que atribuía à comida um valor alegórico. Acreditava na existência de conhecimentos que só poderiam se tornar acessíveis por meio de percepções subjetivas. Como não tinha conhecimento dos dons que eu possuía, dizia que ao contrário dela eu apenas notava o que os meus sentidos me mostravam, e eles me davam apenas uma percepção grosseira das coisas. Afirmava que sua vitalidade, serenidade e alegria de viver resultavam da capacidade de harmonizar o mundo físico e espiritual através de experiências místicas que não me explicava quais eram pois eu não as entenderia. Quando lhe perguntei que papel desempenhavam nesse processo os exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação que ela fazia diariamente, Anita, depois de sorrir superiormente, afirmou que eu, como um monge da Idade Média, confundia misticismo com ascetismo. Na verdade, suas inclinações esotéricas aliadas à sua beleza — ela poderia ser usada como a ilustração da Princesa numa história de era-uma-vez — a tornavam ainda mais atraente.

Foi no restaurante que declarei o meu amor por Anita. Depois fomos para a minha casa.

Naquela noite fizemos amor pela primeira vez. Depois, durante nosso preguiçoso repouso, intercalado de palavras carinhosas, ela perguntou se eu tinha um dicionário de música, pois queria fazer uma consulta. Normalmente eu me levantaria da cama e iria apanhar o dicionário. Mas Anita, notando minha sonolência, causada pelo vinho que tomamos no jantar e pela saciação amorosa, disse que encontraria o dicionário, que eu permanecesse deitado.

Anita demorou a voltar para o quarto. Creio que até cochilei um pouco. Quando voltou, tinha o Álbum de fezes na mão.

O que é isto?, perguntou. Levantei-me da cama num pulo e tentei tirá-lo das suas mãos, explicando que não gostaria que lesse aquilo, pois ficaria chocada. Anita respondeu que já lera várias páginas e que achara engraçado. Pediu-me que explicasse em detalhes o que era e para que servia aquele dossiê.

Contei-lhe tudo e minha narrativa foi acompanhada atentamente por Anita, que amiúde consultava o Álbum que mantinha nas mãos. Para meu espanto, ela não só fez perguntas como discutiu comigo detalhes referentes às minhas interpretações. Falei-lhe da minha surpresa com a sua reação, mencionei o fato de ela ter detestado um dos meus livros, que tem uma história envolvendo fezes, e Anita respondeu que o motivo da sua aversão fora outro, o comportamento romântico machista do personagem masculino. Que aquilo tudo que lhe dizia a deixava feliz, pois indicava que eu era uma pessoa muito sensível. Aproveitei para dizer que gostaria de um dia ver as suas fezes, mas ela reagiu dizendo que nunca permitiria isso. Mas que não se incomodaria de ver as minhas.

Durante algum tempo observamos e analisamos as minhas fezes e discutimos a sua fenomenologia. Um dia, estávamos na casa de Anita e ela me chamou para ver suas fezes no vaso sanitário. Confesso que fiquei emocionado, senti o nosso amor fortalecido, a confiança entre os amantes tem esse efeito. Infelizmente o aparelho sanitário de Anita era do tal modelo alto e afunilado, e isso prejudicara a integridade das fezes que ela me mostrava, causando uma distorção exógena que tornara a massa ilegível. Expliquei isso para Anita, disse-lhe que para impedir que o problema voltasse a ocorrer ela teria que usar o meu vaso especial. Anita concordou e afirmou que ficara feliz ao contemplar as minhas fezes e que ao mostrar-me as suas se sentira mais livre, mais ligada a mim.

No dia seguinte, Anita defecou no meu banheiro. Suas fezes eram de uma extraordinária riqueza, várias peças em forma de bengalas ou báculos, simetricamente dispostas, lado a lado. Eu nunca vira fezes com desenho tão instigante. Então notei, horrorizado, que um dos bastonetes estava todo retorcido, formando o número oito, um oito igual ao que vira nas entranhas do cabrito sacrificado pelo arúspice, o augúrio da morte da minha mãe.

Anita, ao notar minha palidez, perguntou se eu estava me sentindo bem. Respondi que aquele desenho significava que alguém muito ligado a ela iria morrer. Anita duvidou, ou fingiu duvidar, do meu vaticínio. Contei-lhe a história da minha mãe, disse que havia sido de oito dias o prazo que transcorrera entre a revelação do arúspice e a morte dela.

Ninguém era tão próximo de Anita quanto eu. Marcado para morrer, eu tinha que me apressar, pois queria passar para ela os segredos da copromancia, palavra inexistente em todos os dicionários e que eu compusera com óbvios elementos gregos. Somente eu, criador solitário do seu código e da sua hermenêutica, possuía, no mundo, esse dom divinatório.

Amanhã será o oitavo dia. Estamos na cama, cansados. Acabei de perguntar a Anita se ela queria fazer amor. Ela respondeu que preferia ficar quieta ao meu lado, de mãos dadas, no escuro, ouvindo a minha respiração.


Rubem Fonseca